
Este texto, originalmente da autoria de Freud e escrito na fase embrionária da Psicanálise pode servir de base para o estudante que inicia sua relação com a metapsicologia freudiana.
Basicamente, o texto nos mostra um Freud ingênuo, pela primeira vez incrédulo quanto à assertividade da técnica da hipnose, mas claramente empolgado com a técnica terapêutica auxiliar que denominou "técnica da pressão na testa".
O texto, cheio de recortes e alusões aos casos dos "Estudos", é também uma reflexão sobre o que o método de Breuer atingiu e , sobretudo, no que foi falho no tocante à elucidação dos fenômenos neuróticos.
Em se tratando do primeiro tópico deste trabalho, observamos que sua ênfase está na explicação do que viria a ser a Histeria, separando-a das chamadas neuroses de angústia e neuroses obsessivas.
De saída, notamos o que seria o objetivo da psicoterapia destinada à histeria: liberar o afeto ligado a uma representação traumática que deve emergir para que seu efeito cesse. Nesse sentido, sabe-se, desde o início, que o trabalho do psicanalista, ou do médico - já que é esta a posição de Freud neste momento - é buscar o afeto relacionado à representação , a uma ideia traumática e angustiante o suficiente para provocar o desequilíbrio do paciente, seu mal estar e a impossibilidade de viver uma vida saudável, sem os sobressaltos dos sintomas psicogênicos que constituem a base da doença nervosa em questão.
Para tanto, é necessário que o médico entenda as vicissitudes do fenômeno histérico. Na ocasião da escrita do presente texto, Freud não acreditava tanto na existência de neuroses puras; tal como afirma, sua experiência clínica o ensinara que mais comum seria vê-las em uma miscelânea de sintomas, muitas vezes sintomas estes de angústia, fóbicos, etc. Assim, seria difícil ver uma histeria que não trouxesse em sua unidade, alguns sintomas típicos das neuroses de angústia, por exemplo.
Dessa forma, entende-se que existem outras neuroses com outras configurações que não as mesmas encontradas nas pacientes hoje clássicas que protagonizam os "Estudos sobre Histeria", tal como as grandes atrizes do século XIX: Anna O, Emmy von N, Katharina e Elisabeth von R. são o modelo de histérica que o mundo científico conheceu e com o qual aprendeu sobre os fenômenos piscogênicos atuantes nesta doença.
Apesar disto, Freud nos faz uma advertência válida: Nem toda neurose é histeria, mas, toda histeria é uma neurose. Parece básico, mas neste primeiro momento, este momento de fincar as bases do que seria o arcabouço teórico de uma nova "psicologia", foi sensata a diferenciação: assim, soubemos que a Histeria é uma constituição que, dificilmente, será modificada pela influência do médico ou do psicanalista; mais fácil seria, então, agir sobre as consequencias desta psicopatologia que levariam o paciente - e mais frequentemente, a paciente - a sucumbir, prejudicando sua vida social e de trabalho.
Esta "ação", cabe dizer, implica paciência, posto que se travará uma luta diante de um ego que resiste a trazer para a consciência os materiais que foram parar no inconsciente devido ao grau de periculosidade a eles inerente. O trabalho é de Sísifo, como revela Freud: exige paciência, disponibilidade afetiva (sem a qual nenhum tratamento terapêutico consegue lograr êxito) e, mais importante: deixar a doença seguir seu curso, pois só assim alguém poderá conhecer as suas maiores fraquezas para que possa apontar-lhes suas armas.
No texto Freud também nos revela sua aparente ignorância diante da etiologia das neuroses, sobretudo no que tange ao papel da sexualidade no desenvolvimento desta patologia. Freud assume sua inexperiência, sua inabilidade e até mesmo, como poderiam alguns pensar, sua dificuldade em compreender o papel que a sexualidade teria nos casos em que publicou nos "Estudos", em co-autoria com Breuer.
O texto "A psicoterapia da Histeria" pode ser lido juntamente com o texto "Diferenças entre os dois autores", presente no mesmo volume de "Estudos sobre histeria". A leitura dos dois trabalhos faz com que o leitor compreenda melhor os pontos em que Freud e Breuer divergem e em que pontos os autores se aproximam. Dito isto, e lido este texto das diferenças, parece interessante perceber o desenvolvimento das ideias de Freud, sobretudo no que se refere as suas contribuições particulares ao tratamento das neuroses histéricas: podemos enumerar algumas delas, como , os conceitos de resistência e as bases para o que, posteriormente, veio a se transformar no conceito de transferência.
"Psicoterapia da Histeria" nos mostra quem de fato é o Freud cientista, quais foram suas críticas em torno do método catártico de Breuer, suas reticências sobre o método da hipnose de Charcot, ou seja, estamos vendo um teórico nascer ao nos depararmos com reflexôes críticas diante das próprias atitudes, precipitações e incredulidades.
Ao que parece, os textos de Freud têm muito a ensinar, mas estes ensinamentos não abrangem apenas aspectos téoricos necessários para a compreensão de uma nova disciplina ; eles nos ensinam uma lição que há muito o mundo acadêmico se esforça para esquecer: humildade intelectual, o que implica assunção de erros comuns a todo e qualquer cientista - ser humano - empolgado com o "maravilhoso mundo dos fenômenos psíquicos" e que, por isso mesmo, está destinado a falhar em alguns momentos. E Freud não hesita em mostrar-nos seus erros, o que parece, muitas vezes, algo de uma ingenuidade particular, quase extinta, diga-se de passagem.
